"Tendes
ouvido o que foi dito: Não adulterareis. Eu, porém, vos digo que todo o que põe
seus olhos em uma mulher, para a cobiçar, já no seu coração cometeu
adultério... É necessário que haja escândalos, mas aí do homem por quem o
escândalo vem." Jesus / Mateus, 5:27 e 28.
A atitude pecaminosa e o pecado consumado são igualmente passíveis de condenação pela soberana justiça do céu.
Há capacidade para
o mal, como há para o bem. O estado pecaminoso está incurso na lei divina,
ainda mesmo que, por esta ou aquela circunstância, não se objetive o pecado.
A justiça da Terra julga pelas aparências. A do céu julga segundo a reta equidade. Para o julgamento do mundo é mister que o mal se concretize para que exista e seja condenado. Para o juízo divino, que penetra o âmago dos corações, não é isto necessário: ele constata o mal latente e o exprobra desde logo.
E assim se
explicam as palavras de Jesus: Época preciso que haja escândalo; mas ai daquele
por quem vem o escândalo. Sim, é preciso que a maldade humana, oculta nos
pélagos insondáveis do Espírito, se manifeste, se mostre à luz do dia para que
o delinqüente se reconheça como tal, e, suportando as conseqüências dolorosas
do delito, se corrija e se converta.
Enquanto a
sujidade permanece escondida, o homem se julga puro; quando, porém, extravasa a
lama pútrida que jazia acamada no fundo de sua alma, ele desperta para a
realidade e se reconhece pecador. É o que sucedeu com o Mancebo, cuja paixão
pelas riquezas mundanas Jesus tornou patente.
Sendo a confissão
da culpa o início da redenção, é preciso que haja escândalo, visto como o homem
só se curva à evidência dos seus pecados quando estes se tornam ostensivos, não
lhe sendo mais possível dissimulá-los.
Que importa que o adultério não se haja consumado, se ele existe no coração? Que importa que o homem mau não haja tirado a vida a ninguém, se ele é homicida de pensamento, se alimenta ódio contra seu próximo e se regozija com as alheias desventuras?
Quem diria que
Judas seria capaz de vender a Jesus Cristo por trinta dinheiros, senão o mesmo
Jesus, que sabia existir na alma cúpida daquele discípulo a avareza, a sede
insaciável de ouro que, no dizer de Paulo, é a raiz de todos os males? Nesse
caso, dir-se-á: porque, então, Jesus chamou Judas para o apostolado? Justamente
porque era preciso que o escândalo se verificasse, já em proveito da missão que
Jesus vinha desempenhar na Terra, já no do próprio Judas, cuja redenção teve
início precisamente após a prática daquele crime de traição. O tremendo remorso
de que se viu possuído é o atestado certo do despertar de sua consciência até
ali mergulhada na embriaguez de bastardas paixões.
Noutro terreno menos grave, vemos Pedro, o apóstolo arrojado, cujo temperamento ardoroso tão bem se prestava a transmitir as mensagens do céu, negar três vezes o seu Mestre, a despeito mesmo de haver sido por ele prevenido dessa prova pela qual devia passar. A negação de Pedro foi, a seu turno, um escândalo; mas, era preciso que assim sucedesse para que Pedro se acautelasse contra uma ralha de seu bondoso caráter.
Jesus estava certo de que Pedro podia negá-lo; porem Pedro, a parte mais interessada no caso, ignorava que de tal fosse capaz. Após a consumação do ato pecaminoso, ficou-se conhecendo melhor; e, como é sabido, do conhecimento próprio depende a obra de nosso aperfeiçoamento. Pedro, no conceito de Jesus, era o mesmo, antes e depois da negação. Esta falta, ou melhor, a capacidade de praticar ou incorrer em tal gênero de pecado, já Jesus havia descortinado no interior daquele apóstolo.
De todos estes
comentos ressalta grande e proveitosíssima lição de humildade, que convém
assinalar. Do exposto, é forçoso concluir que existe em todos nós grandes
falhas de caráter, muitas e variadas capacidades de pecar. Esta convicção, do
que em realidade somos, há de nos tornar mais benevolentes, menos descaridosos
para com as quedas alheias. Veremos com olhos mais complacentes as vitimas do
crime; e, - como os acusadores da mulher adúltera, aos quais Jesus forçou
reconhecer as culpas próprias — não nos sentiremos com ânimo de atirar-lhes a primeira
pedra.
Livro: Em Torno
doMestre.
Vinícius / (Pedro
de Camargo)
