Pede-me
você uma palavra para o intróito do «Parnaso de Além-Túmulo», que aparecerá
brevemente em nova edição.
Na
tarefa é difícil. Nas minhas atuais condições de vida, tenho de destoar da
opinião que já expendi nas contingências da carne.
Os
vivos do Além e os vivos da Terra não podem enxergar as coisas através de
prismas idênticos. Imagine se o aparelho visual do homem fosse acomodado,
segundo a potencialidade dos raios X: as cidades estariam povoadas de
esqueletos, os campos se apresentariam como desertos, o mundo constituiria um
conjunto de aspectos inverossímeis e inesperados.
Cada
Esfera da vida está subordinada a certo determinismo, no domínio do
conhecimento e da sensação.
Decerto,
os que receberem novamente o «Parnaso de Além-Túmulo» dirão mais ou menos o que
eu disse. Hão-de estranhar que os mortos prossigam com as mesmas tendências,
tangendo os mesmos assuntos que aí constituíam a série de suas preocupações.
Existem
até os que reclamam contra a nossa liberdade. Desejariam que estivéssemos
algemados nos tormentos do inferno, em recompensa dos nossos desequilíbrios no
mundo, como se os nossos amargores, daí, não bastassem para nos inclinar à
verdade compassiva.
Individualmente,
é indubitável que possuímos no Além o reflexo das nossas virtudes ou das nossas
misérias.
Mas
é razoável que apareçamos no mundo, gritando como alucinados? Os habitantes dos
reinos da Morte ainda apreciam o decoro e a decência, e o nosso presente é
sempre a experiência do passado e a esperança no futuro.
«Parnaso
de Além-Túmulo» sairá de novo, como a mensagem harmoniosa dos poetas que amaram
e sofreram. Carmen Cinira aí está com os seus sonhos desfeitos, de mulher e de
menina, Casimiro com a sua sensibilidade infantil, Junqueiro com a sua ironia,
Antero com a sua rima austera e dolorosa.
Todos
aí estão, dentro das suas características. Os mortos falam e a Humanidade está
ansiosa, aguardando a sua palavra.
Conta-se
que na guerra russo-japonesa, terminada a batalha de Tsushima, o grande Togo
reuniu os seus soldados no cemitério de Oogama, e na tristeza majestosa do
ambiente, em nome da nacionalidade, dirigiu-se aos mortos em termos
comovedores; concitou-os a auxiliar as manobras militares, a visitar os
cruzadores de guerra, levantando o ânimo dos companheiros que haviam ficado nas
pelejas. Uma claridade nova cantou as energias espirituais do valente
adversário da pátria de Stoessel e os filhos de Yoritomo venceram.
Na
atualidade, afigura-se-nos que os brados de todos os sofredores e infelizes da
Terra se concentram numa súplica grandiosa que invade as vastidões como o grito
do valoroso almirante.
—
De pé, os mortos!… — exclama-se — porque os vivos da Terra se perdem nos
abismos tenebrosos.
Os
institutos da Civilização têm sido impotentes para resolver o problema do nosso
ser e dos nossos destinos.
As
filosofias e as religiões estenderam sobre nós o manto carinhoso das suas
concepções, mas esses mantos estão rotos!… Temos frio, temos fome, temos sede!
E
os considerados mortos falam ao mundo na sua linguagem de estranha purificação.
A Ciência, zelosa de suas conquistas, ainda não ouviu a sua vibração
misteriosa, mas os filhos do infortúnio sentem-se envolvidos na onda divina de
um novo Glória in excelsis, e a Humanidade sofredora sente-se no caminho
consolador da sublime esperança.
Humberto
de Campos - (Irmão X)
Parnaso
de Além-Túmulo – Espíritos diversos /
Chico Xavier.

.jpg)