Pretende-se
dividir o trabalho em duas categorias distintas: o trabalho intelectual e o
trabalho manual.
Diz-se —
intelectuais — dos homens cuja atividade se exerce no recinto de uma sala: são
as chamadas — profissões liberais. Aqueles que labutam em serviços que demandam
o concurso dos músculos — nas fábricas, nas oficinas ou no campo — denominam-se
operários e jornaleiros.
Em rigor essa
classificação não corresponde à realidade. Quem age é, invariavelmente, o
intelecto ou inteligência, seja qual for o ramo de atividade que o homem
exerça. Os músculos são para o homem o que a ferramenta é para o operário.
Ninguém diria que a trolha, o prumo e o nível constroem casas. Seria ainda
maior insânia dizer que o arsenal cirúrgico realiza operações de baixa e alta
cirurgia, ou que alguns pincéis e uma palheta sejam os legítimos autores de
telas e painéis que se admiram nos museus.
Não há trabalho,
por mais modesto, que não reclame a ação do intelecto. É a inteligência que
dirige a pá do cantoneiro, a brocha do pintor, a garlopa do carpinteiro, a pena
do escritor, o buril do estatuário, o bisturi do cirurgião. Qualquer obra é
fruto da inteligência, seja esta, seja aquela.
O homem máquina é
uma aberração. As coisas simples e comezinhas
requerem inteligência na execução. As
obras mais rudes e materiais — como a escavação ou o nivelamento do solo — e as
mais delicadas e intelectivas — como as intervenções Cirúrgicas em órgãos
vitais — reclamam sempre a inteligência, e só a inteligência as pode executar
tais como devem ser.
A inteligência
educada ou deseducada revela-se tanto no plano intelectual, quanto no manual ou
muscular.
O automatismo, na
esfera humana de ação, é indício seguro de anomalia psíquica.
O homem consciente
de si mesmo, cuja dignidade despertou, jamais se movimenta como as maquinarias.
Tudo quanto o homem é chamado a fazer, no cenário da vida, há de ser feito com
a inteligência. Cérebro e músculos, cabeça e braços são — como, de resto, todas
as demais partes do corpo — instrumentos do espírito. E o homem, digno de ser
homem, sabe que ele é espírito porque tem plena consciência de que vive pela inteligência
e pelo sentimento.
Livro: Em Torno do
Mestre.
Vinícius / (Pedro
de Camargo)
