sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Avareza – Vinícius

         Guardai-vos e acautelai-vos de toda a avareza, porque a vida de um homem não consiste na abundância dos bens que possui — disse o maior expoente da Verdade que os homens conhecemos. Em seguida, para corroborar aquele assertivo, propôs a seguinte parábola aos seus discípulos:

         As terras de um homem rico produziram muito fruto. E ele discorria consigo: Que farei, pois não tenho onde recolher os meus frutos? E concluiu: Farei isto: derribarei os meus celeiros e os reconstruirei maiores, e aí guardarei toda a colheita e os meus bens; e, em seguida, direi: Minha alma, tens largos bens em depósito para longos e dilatados anos: descansa, come, bebe e regala-te. Mas, Deus disse-lhe: Néscio, esta noite te exigirão a tua alma; e as fazendas que ajuntaste, para quem serão?

         Quanta sabedoria em tão singela fábula!

         Quão transcendente lição nesta frase tão simples: A vida do homem não consiste nos bens que possui!

         Se a longevidade dependesse dos cabedais, seria justificável que o homem se empenhasse pelos obter a todo custo.

         Se, de outra sorte, a felicidade tivesse uma relação direta com as riquezas, compreender-se-ia que o homem buscasse conquistá-las, envidando, para isso, seus melhores esforços.

         Mas, o fato indiscutível é que a vida e a felicidade do homem (felicidade, que outra coisa não é senão alegria de viver) independem dos bens que ele consegue obter e amontoar.

         Ora, se as fazendas e os haveres não asseguram vida longa nem venturosa, como se explica a fascinação que exercem sobre os homens?

         De onde procede tanto apego às temporalidades do século?

         Jesus responde: vem da avareza. E, não só aponta a origem de tal vesânia, como adverte: Guardai-vos e acautelai-vos de toda a avareza.

         Sim, de toda a avareza, isto é, das várias formas que essa terrível paixão assume, dominando o coração do homem.

         Alexandre Herculano, impressionado com os diversos aspectos do orgulho, exclama: Orgulho humano! que serás tu mais: estúpido, feroz ou ridículo?

         Pois a avareza comporta aqueles três qualificativos: pode ser estúpida, ridícula ou feroz.

         A estúpida é aquela modalidade sórdida e mesquinha que faz o homem privar-se do conforto, do necessário e até do indispensável, perecendo à míngua para conservar intacta a pecúnia avaramente amealhada.

         A avareza ridícula é a do homem que tem no dinheiro o seu ídolo, a sua preocupação constante e absorvente, empregando-o, embora, no luxo, na ostentação, ou simplesmente na satisfação dos seus apetites e caprichos.

         A feroz (de todas a mais perniciosa) é a avareza dos açambarcadores, dos organizadores de monopólios e trustes, cuja ambição e cupidez desmedidas não se contentam com menos que possuir o mundo inteiro, ainda que para tanto seja mister reduzir à miséria toda a Humanidade.

         Outrora, essa avareza gerou os conquistadores e os latifúndios.

         Atualmente, ostenta-se nas grandes organizações comerciais e industriais, nas companhias, nos sindicatos e empresas poderosas cujos tentáculos se alongam em todas as direções.

         Essa classe de avareza é geralmente peculiar a homens inteligentes, ricos, astutos e de alta cotação social. Das três, é, como ficou dito, a mais perniciosa e a que mais danos tem acarretado à sociedade de todos os tempos. Um só avaro dessa categoria, ou uma comandita de meia dúzia deles, pode reduzir à fome uma cidade, um povo inteiro.

         É a responsável pela carestia e pelas crises econômicas que convulsionam o mundo, dando origem às lutas fratricidas que, por vezes, estendem o negro véu da orfandade e da viuvez sobre milhares de crianças e de mulheres indefesas. É também obra sua, nos tempos que correm, os milhões de desocupados nos países industriais, e as pretensas superproduções nos países agrícolas.

         O trabalho suspenso; o legítimo comércio (que significa a livre troca de produtos entre as nações), quase de todo paralisado graças às odiosas barreiras alfandegárias, são outros tantos crimes de lesa humanidade praticados pela avareza da terceira espécie, isto é, a feroz.

         As outras duas formas são mais estados mórbidos ou doentios da alma; a feroz é que caracteriza a verdadeira avareza. Aquelas prejudicam somente os indivíduos que as alimentam; ao passo que os maléficos efeitos desta atingem um raio de ação considerável, incalculável mesmo.

         * * *

         Todavia, os escravizados por essa cruel paixão são dignos de piedade.

         Vivem iludidos; agitam-se, como todos os homens, em busca da sonhada felicidade. Julgam encontrá-la na satisfação dos desejos, na expansão do egoísmo. Cobiçando sempre, vão alimentando ambições, que jamais chegam a ser satisfeitas.

         Entretanto, a nossa alma, para ser feliz, não precisa construir celeiros de proporções desmesuradas como fez o rico da parábola; não precisa mesmo de um céu imenso, recamado de sóis refulgentes, basta-lhe uma nesga azul, onde "brilhe a estrela do amor".

         Livro: Em Torno do Mestre.

         Vinícius (Pedro de Camargo)

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