Que significa a
evolução se os seres inferiores não evolvem para as espécies superiores? Onde a
eficiência dessa lei eterna e incoercível se os seres devem permanecer
eternamente chumbados ao estado e às condições em que os conhecemos no momento
atual?
Não temos, acaso,
para refutar aquela hipótese, o fato inconteste das profundas modificações
verificadas entre os animais de hoje em comparação com os do passado? O mesmo
gênero humano não escapa a estas alterações. Os homens, como os animais da
atualidade, divergem dos homens e dos animais de outrora. Destes últimos,
várias espécies desapareceram do teatro terreno, existindo apenas exemplares
nos museus. Outras variedades há que existiram em épocas remotas e só lograram
chegar ao nosso conhecimento através de vestígios fósseis.
A criação é uma
cadeia infinita cujos elos se entrelaçam num movimento ascensional constante.
Não podemos, naturalmente, ver e palpar esse entrelaçamento gradual e
progressivo dos seres, porque o orbe em que habitamos não passa de uma nesga ou
fração diminuta do Universo.
Os elos da
infinita cadeia se conjugam no incomensurável cenário da vida universal.
Podemos imaginar esse fenômeno, podemos concebê-lo, mercê de nossa inteligência
e de nosso raciocínio, mas não nos é dado comprová-lo neste mísero recanto que
ora nos hospeda.
A escada que Jacob
viu em sonhos, quando em caminho da Mesopotâmia, é a imagem fiel da evolução.
Por essa escada, cujas extremidades se apoiavam, respectivamente, uma na Terra,
outra no Céu, subiam e desciam os Espíritos. A escada com seus múltiplos
degraus alegoriza claramente as várias etapas do progresso que os Espíritos vão
galgando na conquista aurifulgente de seus destinos.
A Terra não está
insulada no céu. Tudo, na criação, é solidário, como solidárias são as células
de nosso corpo.
Mundos e sóis,
planetas e astros, anjos e homens, animais e plantas — todas as modalidades de
vida, da mais simples e rudimentar à mais complexa e elevada, sobe a escada
maravilhosa da evolução como hino triunfal que a Natureza entoa à sabedoria
infinita e ao amor incomparável de Deus.
O grande
naturalista Darwin, conquanto se mantivesse exclusivamente no terreno da Biologia, averiguou a
veracidade da evolução através das variadas espécies animais anatomicamente
estudadas. Gabriel Delanne, o pensador profundo, o espiritualista consumado, em
sua obra majestosa — Evolução Anímica — firma, com dados positivos, o conceito,
hoje indiscutível, do progresso de todos os seres numa empolgante peregrinação
pela senda intérmina do aperfeiçoamento. Wesley, protestante, fundador da
igreja metodista, era partidário da evolução. Raciocinando, certa vez, sobre a
sorte dos animais, teve este pensamento, próprio de uma alma cristã, de um
coração amorável e justo: "Meu Deus! certamente tens concedido aos animais
a faculdade de melhorar. Creio que eles não permanecerão no estado de
inferioridade em que hoje os conhecemos."
A evolução é um
fato que se impõe, e que em tudo se verifica. No campo do subjetivo ela se
ostenta também em demonstrações e testemunhos irretorquíveis. A imprensa de
Gutenberg evolutiu para as Marinoni, essas máquinas admiráveis, verdadeiros
prodígios da mecânica moderna. Os barcos de Fulton evolveram, a seu turno, para
essas naus possantes, para os transatlânticos que são cidades flutuantes unindo
os continentes. A idéia de Gutenberg e a de Fulton, para citar apenas dois exemplos,
emigraram de cérebro em cérebro de geração em geração, subindo, ascendendo aos
altos paramos do aperfeiçoamento. E, certamente não se cristalizarão aí. O
futuro, em todos os tempos sempre trouxe em seu bojo surpresas maravilhosas.
Creio na evolução
porque creio na justiça. Creio na justiça porque creio em Deus!
Livro: Em Torno do
Mestre.
Vinícius (Pedro de
Camargo)