segunda-feira, 27 de abril de 2026

A supremacia do espírito – Vinícius.

Pretende-se dividir o trabalho em duas categorias distintas: o trabalho intelectual e o trabalho manual.

Diz-se — intelectuais — dos homens cuja atividade se exerce no recinto de uma sala: são as chamadas — profissões liberais. Aqueles que labutam em serviços que demandam o concurso dos músculos — nas fábricas, nas oficinas ou no campo — denominam-se operários e jornaleiros.

Em rigor essa classificação não corresponde à realidade. Quem age é, invariavelmente, o intelecto ou inteligência, seja qual for o ramo de atividade que o homem exerça. Os músculos são para o homem o que a ferramenta é para o operário. Ninguém diria que a trolha, o prumo e o nível constroem casas. Seria ainda maior insânia dizer que o arsenal cirúrgico realiza operações de baixa e alta cirurgia, ou que alguns pincéis e uma palheta sejam os legítimos autores de telas e painéis que se admiram nos museus.

Não há trabalho, por mais modesto, que não reclame a ação do intelecto. É a inteligência que dirige a pá do cantoneiro, a brocha do pintor, a garlopa do carpinteiro, a pena do escritor, o buril do estatuário, o bisturi do cirurgião. Qualquer obra é fruto da inteligência, seja esta, seja aquela.

O homem máquina é uma aberração. As coisas simples e comezinhas

requerem inteligência na execução. As obras mais rudes e materiais — como a escavação ou o nivelamento do solo — e as mais delicadas e intelectivas — como as intervenções Cirúrgicas em órgãos vitais — reclamam sempre a inteligência, e só a inteligência as pode executar tais como devem ser.

A inteligência educada ou deseducada revela-se tanto no plano intelectual, quanto no manual ou muscular.

O automatismo, na esfera humana de ação, é indício seguro de anomalia psíquica.

O homem consciente de si mesmo, cuja dignidade despertou, jamais se movimenta como as maquinarias. Tudo quanto o homem é chamado a fazer, no cenário da vida, há de ser feito com a inteligência. Cérebro e músculos, cabeça e braços são — como, de resto, todas as demais partes do corpo — instrumentos do espírito. E o homem, digno de ser homem, sabe que ele é espírito porque tem plena consciência de que vive pela inteligência e pelo sentimento.

Livro: Em Torno do Mestre.

Vinícius / (Pedro de Camargo)

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