quarta-feira, 21 de outubro de 2026
A CAPA DE SANTO – Irmão X
Certo
discípulo, extremamente aplicado ao Infinito Bem, depois de largo tempo ao lado
do Divino Mestre recebeu a incumbência de servi-lo entre os homens da Terra.
Desceu
da Esfera Superior em que se demorava e nasceu entre as criaturas para ser carpinteiro.
Operário
digno e leal, muita vez experimentou conflitos amargurosos, mas, fervoroso, apegava-se
à proteção dos santos e terminou a primeira missão admiravelmente.
Tornou
ao céu, jubiloso, e recebeu encargos de marinheiro.
Regressou
à carne e trabalhou assíduo, em viagens inúmeras, espalhando benefícios em nome
do Senhor.
Momentos
houve em que a tempestade o defrontou ameaçador, mas o aprendiz, nas lides do
mar, recorria aos Heróis Bem-Aventurados e entesourou forças para vencer.
Rematou
o serviço de maneira louvável e voltou à Casa Celeste, de onde retornou ao mundo
para ser copista.
Exercitaram-se,
então, pacientemente, nos trabalhos de escrita, gravando luminosos ensinamentos
dos sábios; e, quando a aflição ou o enigma lhe visitaram a alma, lembrava-se dos
Benfeitores Consagrados e nunca permaneceu sem o alívio esperado.
Novamente
restituído ao Domicílio do Alto, sempre louvado pela conduta irrepreensível, desceu
aos círculos de luta comum para ser lavrador.
Serviu
com inexprimível abnegação à gleba em que renascera e, se as dores lhe buscavam
o coração ou o lar, suplicava os bons ofícios dos Advogados dos Pecadores e
jamais ficou desamparado.
Depois
de precioso descanso, ressurgiu no campo humano para exercitar-se no domínio
das ciências e das artes.
Foi
aluno de filosofia e encontrou numerosas tentações contra a fé espontânea que
lhe sustentava a alma simples e estudiosa; todavia em todos os percalços do
caminho, implorava a cooperação dos Grandes Instrutores da Perfeição, que
haviam conquistado a láurea da santidade, nas mais diversas nações, e
atravessaram ilesas, as provas difíceis.
Logo
após, foi médico e surpreendeu padecimentos que nunca imaginara. Afligiram-se milhares
de vezes ante as agruras de muitos destinos lamentáveis; refugiou-se na
paciência, pediu socorro dos Protetores da Humanidade e, com o patrocínio
deles, venceu, mais uma vez.
Tamanha
devoção adquiriu que não sabia mais trabalhar sem recurso imediato ao concurso dos
Espíritos Glorificados na própria sublimação.
Para
ela, semelhantes benfeitores seriam campeões da graça, privilegiados do Pai
Supremo ou súdito favorecidos do Trono Eterno. E, por isso, prossegui
trabalhando, agarrando-se-lhes à colaboração.
Foi
alfaiate, escultor, poeta, músico, escritor, professor, administrador,
condutor, legislador e sempre se retirou da Terra com distinção.
Vitorioso
em tantos encargos foi chamado pelo Mestre, que lhe falou, conciso:
-
Tens vencido em todas as provas que te confiei e, agora, podes escolher a
própria tarefa.
O
discípulo, embriagado de ventura, considerou sem detença:
-
Senhor, tantas graças tenho recebido dos Benfeitores Divinos, que, doravante,
desejaria ser um deles, junto da Humanidade...
-
Pretenderias, porventura, ser um santo?- indagou o Celeste Instrutor, sorrindo.
-
Sim... - confirmou o aprendiz extasiado.
O
senhor, em tom grave, considerou:
-
O fruto que alimenta deve estar suficientemente amadurecido... Até hoje, na
forma de operário, de artista, de administrador e orientador, tens estado a meu
serviço, junto dos homens, junto de mim. Há muita diferença...
Mas,
o interlocutor insistiu, humilde, e o mestre não lhe negou a concessão.
Renasceu,
desse modo, muito esperançoso, e, aos vinte anos de corpo físico, recebeu do Alto
o manto resplandecente da santidade.
Manifestaram-se
nele dons sublimes.
Adivinhava,
curava, esclarecia, consolava.
A
inteligência, a intuição e a ternura nele eram diferentes e fascinantes.
E
o povo, reconhecendo-lhe a condição, buscou-lhe, em massa, as bênçãos e
diretrizes.
Bons
e maus, justos e injustos, ignorantes e instruídos, jovens e velhos,
exigiram-lhe, sem consideração por suas necessidades naturais, a saúde, o
tempo, a paz e a vida.
Na
categoria de santo, não podia subtrair-se à luta, nem desesperar, e por mais
que fosse rodeado de manjares e flores, por parte dos devotos e beneficiários
reconhecidos, não podia comer, nem dormir, nem pensar, nem lavar-se. Devia dar,
sem reclamação, as próprias forças, à maneira da vela, mantendo a chama por
duas pontas.
Não
valiam escusas, lágrimas, cansaço e serviço feito.
O
povo exigia sempre.
Depois
de dois anos de amargosa batalha espiritual, atormentado e desgostoso,
dirigiu-se em preces ao Senhor e alegou que a capa de santo era por demais
espinhosa e pesava excessivamente.
Reparando-lhe
o pranto sincero, o Mestre ouviu-o, compadecido, e explicou:
-
Olvidaste que, até agora, agiste no comando. Na posição de carpinteiro,
modelavas a madeira; lavrador determinava o solo; médico, ordenavas aos
enfermos; filósofo arregimentava idéias; músico. Tangias o instrumento;
escultor cinzelava a pedra; escritor dispunha sobre as letras; professor
instruía os menos sábios que tu mesmo; administrador e legislador interferiam
nos destinos alheios. Sempre te emprestei autoridade e recurso para os trabalhos
de determinação... Para envergares a capa de santo, porém, é necessário aprender
a servir...
A
fim de alcançares esse glorioso fim, serás, de ora em diante, modelado,
brunido, aprimorado e educado pela vida.
E
enquanto o Mestre sorria complacente e bondoso, o discípulo em pranto, mas reconfortado,
esperava novas ordenações para ingressar no precioso curso de obediência.
Livro:
Contos e Apólogos.
Irmão
X / Chico Xavier.
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