Um dos requisitos exigidos por Jesus, como condição indispensável àqueles que pretendessem seguir-lhe as pegadas, é a coragem moral.
Eu
vos envio, disse ele aos discípulos, como ovelhas no meio de lobos. Esta frase
é bastante eloqüente e, por si só, define muito bem a posição dos cristãos na
sociedade do século.
"Sereis
entregues aos tribunais por minha causa. Suportareis perseguições, açoites e
prisão. Haverá delações entre os próprios irmãos. Atraireis o ódio de todos. A
vossa vida correrá iminente risco a cada instante.
"Todavia,
não temais, pois até os cabelos de vossas cabeças estão contados. Nenhum receio
deveis ter dos homens, cujo poder não vai além do vosso corpo. Se chamaram
Belzebu ao dono da casa, quanto mais aos seus domésticos. Portanto, nada de
temores: o que vos digo à puridade proclamai-o dos eirados. Nada há encoberto
que não seja descoberto; nada há oculto que se não venha a saber. Por isso,
aquele que me confessar diante dos homens, eu o confessarei diante de meu Pai
celestial; e o que me negar diante dos homens, eu o negarei perante meu Pai que
está nos céus."
Tais
expressões são de clareza meridiana. Para ser cristão, é preciso coragem, ânimo
forte, atitude varonil. "Seja o teu falar: sim, sim; não, não".
(Mateus, 5:37.) Não há lugar para composturas dúbias, indecisas, oscilantes. O
crente em Cristo deve possuir convicção inabalável, têmpera rija, caráter
positivo e franco.
Entre
as virtudes, não há incompatibilidades. A mansuetude, a cordura e a humildade
são predicados que podem (e devem) coexistir com a energia, com a intrepidez,
com a varonilidade. Deus é infinitamente misericordioso e, ao mesmo tempo, é
infinitamente justo.
O
caráter do cristão há de ser forjado de aço de Toledo e de ouro do Transvaal.
Assim disse Amado Nervo: "Ouro sobre aço sejam a tua vontade e a tua
conduta. Sobre o aço do teu pensamento há de luzir o arabesco de ouro das
formas puras e gentis. Ouro e aço será tua vida, serão teus propósitos, serão
teus atos."
Abulia
indiferença e marasmo não são expressões de bondade. "Não és frio, nem
quente; por isso, quero vomitar-te de minha boca." Passividade não é
virtude. Entre o bem e o mal, a verdade e a impostura, a justiça e a iniqüidade
não há lugar para acomodações, nem para neutralidade. O cristão se define
sempre em tais conjunturas, confessando o seu Mestre. "Ninguém pode servir
a dois senhores." Que relação pode haver entre Jesus e Baal? Dobrar os
joelhos diante de todos os tronos, só porque são tronos; curvar-se perante
todos os Césares, só porque são Césares; afazerse às tiranias e às opressões,
anuir direta ou indiretamente às tranquibérnias e vilezas da época; pactuar,
enfim, com a injustiça de qualquer maneira e por quaisquer motivos, é negar a
Jesus-Cristo no cenáculo social. "Não sejais escravos dos homens, nem das
paixões; não sejais, igualmente, nem parasitas, nem bajuladores, nem
mendigos" — disse o grande educador Hilário Ribeiro em um dos seus
excelentes livros didáticos. Não se triunfa na vida, sem ânimo viril. E' a
covardia moral que faz o homem escravizar-se a outros homens; que o faz escravo
de vícios repugnantes e de paixões vis e soezes. E' ainda por pusilanimidade e covardia
que o homem bajula, mendiga e se torna parasita.
Sem
boa dose de coragem (quase ia dizendo de audácia), o homem não cumpre o dever e
menos ainda consegue sair-se airosamente das emergências difíceis da vida. O
suicídio, seja por este ou por aquele motivo, é sempre um ato de covardia
moral. A sentinela valorosa jamais abandona o posto que lhe foi confiado.
Os
altos problemas da Vida, consubstanciados na sentença evangélica — Sede
perfeitos como vosso Pai celestial é perfeito — requerem ânimo forte e vontade
irredutível para serem solucionados. Não é fugindo aos perigos e às
dificuldades que o homem há de vencê-las; é enfrentando-as. A coragem moral é a
primeira virtude do homem de fé. Cumpre, porém, não confundir a verdadeira
coragem com as caricaturas de coragem, que se ostentam por toda a parte. Estas
são burlescas e vulgares, aquela é rara e cheia de nobreza. A coragem não
consiste em atitudes violentas e belicosas. Nada tem de comum com a temeridade.
E' serena e íntima. Não se ostenta em bracejos, ou gesticulações espetaculosas,
nem em vozeios e frases ameaçadoras e ofensivas. Revela-se antes em suportar,
do' que em repelir a ofensa recebida. Energia não significa agressividade. Ser
franco não é ser ferino, nem, sequer, contundente.
Quanto
maior é a coragem, tanto mais calmo age o indivíduo. A consciência do valor
próprio, aliada à fé no Supremo Poder, fêz o homem tolerante e sofrido,
paciente e tranqüilo. Tal foi a atitude invariável de Jesus diante das
conjunturas mais embaraçosas de sua vida terrena. Suportou todas as injúrias,
todas as humilhações e iniqüidades que lhe foram infligidas, conservando
imaculada e intangível a pureza do alto ideal por que se bateu até ao extremo
sacrifício.
Tal é a coragem de que precisam revestir-se os seus discípulos de hoje, como souberam fazer os discípulos do passado. Saulo, antes de ser Paulo, não denotou coragem nenhuma perseguindo, aprisionando e consentindo no assassínio dos primeiros adeptos do Cristianismo nascente.
Saulo
tinha às suas ordens gendarmes municiados; as altas autoridades civis e
eclesiásticas lhe conferiam poderes discricionários. Os perseguidos eram párias
sociais, sem proteção, pobres e desarmados. A atitude de Saulo era daquelas que
confirmam o velho brocardo: Quer conhecer o vilão? Ponha-lhe nas mãos o bastão.
Após
o célebre dia de Damasco, em que Saulo se transformou em Paulo, a vilania
daquele se converteu na coragem moral deste. De algoz, passou a ser vítima. A
seu turno perseguido, tendo agora contra si as armas e o rancor das autoridades
detentoras do poder; correndo os maiores riscos, suportando prisões e açoites,
afrontando a morte a cada momento, Paulo caminha intrépido e destemido, na
defesa da causa santa da justiça e da liberdade personificadas no credo de
Jesus.
O
extraordinário Apóstolo das gentes nos oferece, em si mesmo, exemplos da falsa
e da legítima coragem, antes e depois da conversão.
Convertamo-nos,
pois, nós os espíritas, os neo-cristãos, como se converteu Paulo.
Provemos
em nós mesmos, com a transformação radical de nosso caráter, a eficiência e o
poder de Jesus-Cristo, como redentor da Humanidade, como libertador do homem,
mediante o exemplo de coragem moral que nos legou como herança preciosíssima.
Livro:
Em Torno do Mestre.
Vinícius
/ (Pedro Camargo)
