"Em
verdade vos digo que se não vos converterdes e não vos fizerdes como crianças,
de modo algum entrareis no reino de Deus." – Jesus / Mateus, 18:3.
Jesus,
dirigindo as palavras supracitadas aos seus apóstolos, mostra a necessidade em
que eles se achavam de se converterem.
Mas,
não seriam então convertidos aqueles que acompanhavam o Mestre, ouvindo-lhe os
ensinamentos, edificando-se em suas vivas exemplificações? Não seriam
convertidos aqueles que foram escolhidos pelo mesmo Jesus para seus
colaboradores? Este caso merece ser ponderado. Dele ressalta edificante lição,
digna de todo o nosso acatamento.
Converter
não importa em abraçar este ou aquele credo religioso, nem tão pouco em
filiar-se a esta ou àquela igreja, aceitando determinado corpo de doutrina
qualquer. O incrédulo pode tornar-se crente sem que se verifique com isso um
caso de conversão.
Converter
significa transformar. Onde não há transformação, não há conversão. Quanto mais
acentuada seja a transformação, tanto mais positiva será a conversão. Se essa
transformação for tão grande, a ponto de se não reconhecer o objeto primitivo,
podemos afirmar que se trata de verdadeiro caso de conversão.
Na
natureza, transformar quer dizer melhorar. "Nada se cria, nada se perde,
tudo se transforma"; isto é, tudo sobe, tudo levita. Crescei e multiplicai
— sentença aplicada à criação dos seres — tem sentido espiritual que não deve
ser desprezado. "Para frente e para o alto — tal é a legenda inscrita em
cada átomo do Universo."
Conversão
é fenômeno vital de transformação constante para melhor. Tal fenômeno se
realiza tanto no plano físico quanto no moral. Os reinos da Natureza se
entrelaçam em movimento ascensional de contínuas transformações. O espírito
progride, melhora e se aperfeiçoa através de ininterrupta série de conversões.
Saulo
transforma-se em Paulo, Simão em Pedro, Magdala em Maria. O caráter dessas
personagens sofreu tal modificação que se tornaram o oposto do que eram. O
fanatismo perigoso de Saulo, a fraqueza perniciosa de Simão e a voluptuosidade
desenfreada de Magdala converteram-se na tolerância e no sacrifício de Paulo,
na firmeza heróica de Pedro e na espiritualidade angélica de Maria. Tais são os
tipos genuínos de convertidos.
Conversão
importa também em valorização. Objeto convertido é objeto valorizado. O
escultor toma um bloco de pedra bruta, um lenho tosco ou mesmo um punhado de
argila e converte-os em belas estátuas onde refulgem os primores da arte. É
incalculável o valor que o estatuário imprime, por efeito de conversão, àqueles
materiais obscuros.
Qual
o cômputo possível entre o valor do calcário, antes e depois de ser a Vênus de
Milo ou o Discóbolo? E os gramas de tinta antes e depois de serem convertidos
em quadros de Miguel Ângelo ou de Velásquez? Entretanto, um exame químico
demonstrará tratar-se da mesma substância.
O
mesmo sucede com o homem, antes e depois da sua conversão. O caráter forma-se e
consolidasse através da obra da conversão, obra que uma vez iniciada jamais
deixa de prosseguir em seu curso eficiente de embelezamento e de valorização. O
homem velho vai sendo absorvido pelo homem novo: é o renascimento espiritual
que se opera.
De
tal sorte, é possível volver ao estado de inocência primitiva, conforme disse
Jesus: "Se não vos converterdes, e não vos fizerdes como crianças, não
entrareis no reino de Deus." A inocência revela-se sob dois aspectos
distintos: a ignorância do mal, e a vitória do bem. A primeira forma é o estado
da criança; a segunda representa a condição do justo.
A
criança é inocente, porque desconhece o pecado; o justo é inocente, porque
adquiriu a virtude. A inocência da criança é fruto da insipiência. A inocência
do santo é filha da sabedoria.
Esta
permanece, aquela passa. A transição de uma, para outra espécie de inocência, é
maravilha da conversão. Sem conversão, portanto, ninguém logrará o reino de
Deus.
Livro:
Em Torno do Mestre.
Vinícius
/ (Pedro de Camargo)
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