Que melhor apresentação nos é dado fazer de Jesus senão
aquela que ele próprio revelou? Consideremos, pois, sua auto-apresentação:
"O Batista enviou dois de seus discípulos ao Senhor
para perguntar: És tu aquele que há de vir, ou havemos de esperar outro? Quando
estes homens chegaram a Jesus, disseram: João Batista enviou-nos para indagar de
ti se és o Cristo esperado? Na mesma ocasião Jesus curou a muitos de moléstias,
de flagelos e de espíritos malignos; e deu vista a muitos cegos. Então lhes
respondeu: Ide contar a João o que vistes e ouvistes: os cegos vêem, os coxos
andam, os leprosos ficam limpos, os surdos ouvem, os mortos são ressuscitados,
aos pobres anuncia-se-lhes o Evangelho; bem-aventurado é aquele que em mim não
achar motivo de tropeço."
Tal é o Cristo: o amigo e defensor dos humildes e dos
oprimidos sofredores. O objeto de sua paixão é o pecador. A individualidade
humana representa para ele um valor infinito. Deus é pai dos pecadores. Quanto mais
abatido e vexado pela dor física ou moral, mais interesse o homem lhe desperta.
Haja vista estes dois exemplos: o leproso e a mulher adúltera.
Os leprosos, no tempo em que Jesus passou pela Terra, eram
corridos a pedradas das cidades e aldeias. À lei de Moisés os condenava à
lapidação, se tentassem penetrar nos povoados. Sobre a crueldade dessa lei que visava
a evitar a propagação da lepra, havia ainda a superstição com caráter
religioso, segundo a qual os leprosos eram réprobos a quem Deus punia com o
terrível mal.
E que fêz Jesus com relação àqueles infelizes? Curou-os. As
chagas humanas não lhe causavam asco nem pavor, mas comiseração e piedade. E
não só as mazelas do corpo lhe inspiravam aqueles sentimentos, como também as
da alma. Seu gesto de compaixão pela mísera adúltera apupada pela horda de
fariseus, aliado à sublime lição contida no "aquele que se julgar isento
de culpa atire a primeira pedra" — é outro atestado eloqüente do quanto
lhe interessava a sorte dos pecadores, particularmente dos aflitos e oprimidos.
O Cristianismo é a historia do Cristo junto ao pecador. Na
sua maneira de agir está sua doutrina. Conta Stanley Jones, missionário que há
vinte anos vive na Índia, que naquele país, quando se fala em Cristianismo, o povo
se mostra céptico e completamente desinteressado. Quando, porém, se faz
referência à vida do Cristo no seio da Humanidade, defendendo os explorados,
suavizando as angústias alheias, ensinando ao povo o meio de viver feliz, então
os hindus se tornam atenciosos e, ávidos de curiosidades, pedem que se fale
mais nesse Jesus amorável e bom.
Esse fato é muito significativo. Quer dizer que as lendas
forjadas pelas escolas sectárias em torno do Cristianismo estão comprometendo o
surto daquele credo. Cumpre, portanto, deixar de lado as teorias, o escolasticismo,
os dogmas, os rituais, e anunciar Jesus-Cristo tal como ele é, qual ele próprio
se apresentou aos emissários do Batista, sarando os enfermos e anunciando aos
humildes o Evangelho do amor. E bem-aventurados aqueles que se não
escandalizarem nesse Jesus que é o real e verdadeiro Cristo de Deus.
Não estamos nos tempos das teorias, mas na era dos fatos. O Cristianismo
não é uma teoria: é o mesmo Cristo revelando as leis divinas à Humanidade.
Jesus é um fato histórico e, ao mesmo tempo, uma necessidade de todos os
momentos, porque ele sintetiza, na moral em si mesmo personificada, a solução
de todos os problemas da vida humana: Ecce Homo!
O método para ensinar a verdade religiosa é o mesmo que se
emprega para ensinar a verdade científica: dedução e indução. Ora temos que
partir dos fatos para seus efeitos, ora destes somos levados a remontar
àqueles. Não se pode mais impor crenças: temos que convidar o povo a raciocinar
conosco. A fé oficializada está nos últimos estertores; não tem prestígio moral,
não tem vigor, jaz de há muito na esterilidade.
O momento reclama uma religião que melhore o mundo. Jesus
não é inimigo da sociedade. Conviveu com os homens, tomando parte em suas reuniões
e festividades. Ele é adversário do vício, do crime, da corrupção e da maldade.
Se não tivermos desde já o céu em nós mesmos, não poderemos encontrá-lo
depois da morte; Jesus não veio tão pouco livrar-nos desse inferno localizado
não se sabe onde: veio tirar o inferno de dentro de nós. Como? Ensinando-nos a
conhecer e vencer as paixões egoísticas e animalizadas que nos torturam o
espírito e nos aviltam o caráter.
Jesus curava e prevenia as enfermidades. Sua terapêutica era
curativa e profilática. "Vai, e não peques mais." A saúde do corpo e
do espírito é a lei da Natureza, é o normal. As doenças físicas e morais são as
anomalias, o distúrbio na vida. Sarando o leproso, Jesus não fêz milagre:
restabeleceu no pecador a ordem natural. As curas maravilhosas que operou foram
todas no sentido de fazer voltar, à Natureza, o que dela estava divorciado.
O pecado está na vida anormal que o homem leva no mundo,
Jesus veio normalizá-la. Sua fé é um canto de louvor à Natureza.
Outro característico peculiar a Jesus é a sua atitude de
servidor da Humanidade. Não veio para ser servido, mas para servir: todos os
seus atos comprovam esta frase. Sua vida terrena foi toda de dedicação pelo homem.
Viveu para outrem. Viver para outrem, como ele viveu, não é uma teoria: é um
fato que impressiona profundamente os pensadores. Seus próprios adversários —
Strauss e Renan —, analisando suas pegadas, acabaram rendendo-se à evidência de
seu altruísmo e de seu poder de atração, reconhecendo em tudo que ele fêz o
fruto do seu imenso amor pela Humanidade. Ecce Homo!
O eclesiasticismo ou imperialismo na esfera religiosa, está
em franca decadência. O tempo não comporta mais imperialismos em qualquer terreno.
Jesus quer ser o que ele é, e não o que a clerezia pretende à viva força que
ele seja. Jesus se revela por si mesmo àqueles que o procuram. Precisamos sair
do Paganismo, buscando com Jesus a saúde, a pureza, o valor, a bondade, a
alegria de viver e a imortalidade. Ele é o modelo a ser imitado. É o médico do
corpo e da alma. É o pastor deste rebanho. Onde houver lágrimas a enxugar,
chagas e dores a lenir, aí está Jesus no desempenho de sua missão. Ele é por
excelência o servidor da Humanidade. "Vinde a mim todos vós que vos achais
aflitos e sobrecarregados e eu vos aliviarei" Ecce Homo!
A frase de Pilatos, que nos serve de epígrafe, tornou-se
célebre.
E a quem se referia o pró-cônsul romano?
A Jesus açoitado, escarnecido, trazendo aos ombros um manto
de púrpura como usavam os reis, à cabeça uma coroa de espinhos e na destra uma
cana à guisa de cetro. O Cristo de Deus assim ultrajado e envilecido, sangrando
pela fronte e pelo dorso, coberto de pó, suarento e todo em desalinho, foi
conduzido ao pretório, e dali apresentado, ao poviléu enfurecido, pelo
representante de César na Palestina.
Essa figura trágica, do Filho do Homem, sendo uma realidade
histórica, é também eloqüente símbolo.
Vemos através daquela matéria flagelada, daquele corpo
contundido, chagado e lastimoso, refulgir em todo o seu esplendor um Espírito
varonil que se alteia imponente e sublime sobre os troféus da carne abatida e mortificada!
Jesus vilipendiado é a imagem do soldado que volta de
encarniçada luta, descalço, magro, olhos macilentos, maltrapilho, mas
vitorioso, repassado de glória, sobraçando virentes louros colhidos através de
sua bravura, de seu heroísmo mil vezes comprovado no ardor das refregas e dos
combates cruentos.
Realmente, em síntese, que nos veio ensinar e que nos
exemplificou tão ao vivo o Mestre excelso, senão a luta do espírito com a
matéria, o que vale dizer da vida com a morte?
Ciúmes, invejas, rivalidades e ambição; orgulho, pruridos de
domínio, de ostentação e de grandeza; luxúria, comodismo, ócios intermináveis, prazeres
que só gratificam os sentidos, inclinações que tendem para a materialidade;
vícios que deleitam e embriagam, que fascinam, que desfibram e amolentam
(cortejos dos ministros da morte) devem ser tragados na vitória.
Imitar a Jesus — é servir a Humanidade; conservar a vida é
permanecer no seu ideal; e vencer cada um a si mesmo, à viva força, é penetrar
o reino dos céus, que é o reino do Espírito, o reino da imortalidade.
O Ecce Homo de Pilatos tornou-se frase de renome, cumprindo assinalar
que é ao mesmo tempo profundamente simbólica, pois, em realidade, só deve ser
apresentado como HOMEM aquele que venceu.
Livro: Em Torno do Mestre.
Vinícius – (Pedro de Camargo)
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