quinta-feira, 12 de março de 2026

Ecce Homo - (Eis Aqui o Homem) Vinícius.

         Que melhor apresentação nos é dado fazer de Jesus senão aquela que ele próprio revelou? Consideremos, pois, sua auto-apresentação:

         "O Batista enviou dois de seus discípulos ao Senhor para perguntar: És tu aquele que há de vir, ou havemos de esperar outro? Quando estes homens chegaram a Jesus, disseram: João Batista enviou-nos para indagar de ti se és o Cristo esperado? Na mesma ocasião Jesus curou a muitos de moléstias, de flagelos e de espíritos malignos; e deu vista a muitos cegos. Então lhes respondeu: Ide contar a João o que vistes e ouvistes: os cegos vêem, os coxos andam, os leprosos ficam limpos, os surdos ouvem, os mortos são ressuscitados, aos pobres anuncia-se-lhes o Evangelho; bem-aventurado é aquele que em mim não achar motivo de tropeço."

         Tal é o Cristo: o amigo e defensor dos humildes e dos oprimidos sofredores. O objeto de sua paixão é o pecador. A individualidade humana representa para ele um valor infinito. Deus é pai dos pecadores. Quanto mais abatido e vexado pela dor física ou moral, mais interesse o homem lhe desperta. Haja vista estes dois exemplos: o leproso e a mulher adúltera.

         Os leprosos, no tempo em que Jesus passou pela Terra, eram corridos a pedradas das cidades e aldeias. À lei de Moisés os condenava à lapidação, se tentassem penetrar nos povoados. Sobre a crueldade dessa lei que visava a evitar a propagação da lepra, havia ainda a superstição com caráter religioso, segundo a qual os leprosos eram réprobos a quem Deus punia com o terrível mal.

         E que fêz Jesus com relação àqueles infelizes? Curou-os. As chagas humanas não lhe causavam asco nem pavor, mas comiseração e piedade. E não só as mazelas do corpo lhe inspiravam aqueles sentimentos, como também as da alma. Seu gesto de compaixão pela mísera adúltera apupada pela horda de fariseus, aliado à sublime lição contida no "aquele que se julgar isento de culpa atire a primeira pedra" — é outro atestado eloqüente do quanto lhe interessava a sorte dos pecadores, particularmente dos aflitos e oprimidos.

         O Cristianismo é a historia do Cristo junto ao pecador. Na sua maneira de agir está sua doutrina. Conta Stanley Jones, missionário que há vinte anos vive na Índia, que naquele país, quando se fala em Cristianismo, o povo se mostra céptico e completamente desinteressado. Quando, porém, se faz referência à vida do Cristo no seio da Humanidade, defendendo os explorados, suavizando as angústias alheias, ensinando ao povo o meio de viver feliz, então os hindus se tornam atenciosos e, ávidos de curiosidades, pedem que se fale mais nesse Jesus amorável e bom.

         Esse fato é muito significativo. Quer dizer que as lendas forjadas pelas escolas sectárias em torno do Cristianismo estão comprometendo o surto daquele credo. Cumpre, portanto, deixar de lado as teorias, o escolasticismo, os dogmas, os rituais, e anunciar Jesus-Cristo tal como ele é, qual ele próprio se apresentou aos emissários do Batista, sarando os enfermos e anunciando aos humildes o Evangelho do amor. E bem-aventurados aqueles que se não escandalizarem nesse Jesus que é o real e verdadeiro Cristo de Deus.

         Não estamos nos tempos das teorias, mas na era dos fatos. O Cristianismo não é uma teoria: é o mesmo Cristo revelando as leis divinas à Humanidade. Jesus é um fato histórico e, ao mesmo tempo, uma necessidade de todos os momentos, porque ele sintetiza, na moral em si mesmo personificada, a solução de todos os problemas da vida humana: Ecce Homo!

         O método para ensinar a verdade religiosa é o mesmo que se emprega para ensinar a verdade científica: dedução e indução. Ora temos que partir dos fatos para seus efeitos, ora destes somos levados a remontar àqueles. Não se pode mais impor crenças: temos que convidar o povo a raciocinar conosco. A fé oficializada está nos últimos estertores; não tem prestígio moral, não tem vigor, jaz de há muito na esterilidade.

         O momento reclama uma religião que melhore o mundo. Jesus não é inimigo da sociedade. Conviveu com os homens, tomando parte em suas reuniões e festividades. Ele é adversário do vício, do crime, da corrupção e da maldade.

         Se não tivermos desde já o céu em nós mesmos, não poderemos encontrá-lo depois da morte; Jesus não veio tão pouco livrar-nos desse inferno localizado não se sabe onde: veio tirar o inferno de dentro de nós. Como? Ensinando-nos a conhecer e vencer as paixões egoísticas e animalizadas que nos torturam o espírito e nos aviltam o caráter.

         Jesus curava e prevenia as enfermidades. Sua terapêutica era curativa e profilática. "Vai, e não peques mais." A saúde do corpo e do espírito é a lei da Natureza, é o normal. As doenças físicas e morais são as anomalias, o distúrbio na vida. Sarando o leproso, Jesus não fêz milagre: restabeleceu no pecador a ordem natural. As curas maravilhosas que operou foram todas no sentido de fazer voltar, à Natureza, o que dela estava divorciado.

         O pecado está na vida anormal que o homem leva no mundo, Jesus veio normalizá-la. Sua fé é um canto de louvor à Natureza.

         Outro característico peculiar a Jesus é a sua atitude de servidor da Humanidade. Não veio para ser servido, mas para servir: todos os seus atos comprovam esta frase. Sua vida terrena foi toda de dedicação pelo homem. Viveu para outrem. Viver para outrem, como ele viveu, não é uma teoria: é um fato que impressiona profundamente os pensadores. Seus próprios adversários — Strauss e Renan —, analisando suas pegadas, acabaram rendendo-se à evidência de seu altruísmo e de seu poder de atração, reconhecendo em tudo que ele fêz o fruto do seu imenso amor pela Humanidade. Ecce Homo!

         O eclesiasticismo ou imperialismo na esfera religiosa, está em franca decadência. O tempo não comporta mais imperialismos em qualquer terreno. Jesus quer ser o que ele é, e não o que a clerezia pretende à viva força que ele seja. Jesus se revela por si mesmo àqueles que o procuram. Precisamos sair do Paganismo, buscando com Jesus a saúde, a pureza, o valor, a bondade, a alegria de viver e a imortalidade. Ele é o modelo a ser imitado. É o médico do corpo e da alma. É o pastor deste rebanho. Onde houver lágrimas a enxugar, chagas e dores a lenir, aí está Jesus no desempenho de sua missão. Ele é por excelência o servidor da Humanidade. "Vinde a mim todos vós que vos achais aflitos e sobrecarregados e eu vos aliviarei" Ecce Homo!

         A frase de Pilatos, que nos serve de epígrafe, tornou-se célebre.

         E a quem se referia o pró-cônsul romano?

         A Jesus açoitado, escarnecido, trazendo aos ombros um manto de púrpura como usavam os reis, à cabeça uma coroa de espinhos e na destra uma cana à guisa de cetro. O Cristo de Deus assim ultrajado e envilecido, sangrando pela fronte e pelo dorso, coberto de pó, suarento e todo em desalinho, foi conduzido ao pretório, e dali apresentado, ao poviléu enfurecido, pelo representante de César na Palestina.

         Essa figura trágica, do Filho do Homem, sendo uma realidade histórica, é também eloqüente símbolo.

         Vemos através daquela matéria flagelada, daquele corpo contundido, chagado e lastimoso, refulgir em todo o seu esplendor um Espírito varonil que se alteia imponente e sublime sobre os troféus da carne abatida e mortificada!

         Jesus vilipendiado é a imagem do soldado que volta de encarniçada luta, descalço, magro, olhos macilentos, maltrapilho, mas vitorioso, repassado de glória, sobraçando virentes louros colhidos através de sua bravura, de seu heroísmo mil vezes comprovado no ardor das refregas e dos combates cruentos.

         Realmente, em síntese, que nos veio ensinar e que nos exemplificou tão ao vivo o Mestre excelso, senão a luta do espírito com a matéria, o que vale dizer da vida com a morte?

         Ciúmes, invejas, rivalidades e ambição; orgulho, pruridos de domínio, de ostentação e de grandeza; luxúria, comodismo, ócios intermináveis, prazeres que só gratificam os sentidos, inclinações que tendem para a materialidade; vícios que deleitam e embriagam, que fascinam, que desfibram e amolentam (cortejos dos ministros da morte) devem ser tragados na vitória.

         Imitar a Jesus — é servir a Humanidade; conservar a vida é permanecer no seu ideal; e vencer cada um a si mesmo, à viva força, é penetrar o reino dos céus, que é o reino do Espírito, o reino da imortalidade.

         O Ecce Homo de Pilatos tornou-se frase de renome, cumprindo assinalar que é ao mesmo tempo profundamente simbólica, pois, em realidade, só deve ser apresentado como HOMEM aquele que venceu.

         Livro: Em Torno do Mestre.

         Vinícius – (Pedro de Camargo)

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