quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

O humano e o divino – Vinícius

         As religiões pretendem estabelecer uma linha de separação entre aquilo que se convencionou denominar humano e aquilo que se conhece como divino.

         Para as religiões, o humano é o natural, e o divino é o sobrenatural. Há em tudo isto, certamente, um mal entendido, sendo mesmo um erro de apreciação que deve ser reparado.

         Se considerarmos como humano — o que os homens costumam desnaturar e corromper — estamos de pleno acordo. Neste particular não há só uma linha, mas um abismo de separação entre o que é do homem e o que é de Deus. Mas, se compreendermos por humano o que é natural ou da Natureza, não há nenhuma linha de distinção entre o humano e o divino. Em resumo: tudo o que é natural é divino. A Natureza mesma é divina em todas as suas manifestações. Nosso corpo é humano e é divino ao mesmo tempo, porque é obra de Deus. Nada há no Universo infinito que não proceda do Supremo Arquiteto: logo, tudo é divino.

         O objeto da Religião não é, como supõem os credos religiosos, separar o humano do divino: é aperfeiçoar o humano até que ele se divinize. Não é menoscabar ou destruir a matéria, mas submetê-la ao império do Espírito.

         Nosso corpo, segundo afirma S. Paulo, é santuário de Deus. Se é verdadeira a afirmativa do apóstolo — e cremos piamente que o seja — nosso corpo é divino. Desprezá-lo ou sujeitá-lo propositadamente a sevícias e mortificações não é virtude: é antes um delito. O Converso de Damasco disse: Quem destruir o santuário divino, Deus o destruirá. E disse isto em alusão ao corpo humano.

         Jesus — o divino entre os divinos — não menosprezou o corpo. Ele é o Verbo que se fez carne e habitou entre os homens. Não se sentiu diminuído em se dizer — Filho do homem. Jamais aconselhou o abandono do corpo aos males que o danificam. Os leprosos, cobertos de chagas pútridas, não causavam repugnância ao Enviado celeste. Sobre essas pústulas asquerosas o Cristo de Deus impunha suas mãos e as sarava prontamente. A pureza vencia as impurezas, mostrando na carne a obra que devia também ser feita no Espírito. Nem mesmo a matéria em decomposição inspirava asco ao Filho de Deus.

         O alto escopo do Espírito não é desprezar, nem mortificar, nem odiar a carne: é simplesmente dominá-la, sujeitando-a ao seu governo e direção.

         O sobrenatural é o absurdo, e o absurdo é dos homens, embora as religiões pretendam que seja de Deus. Com Deus está a verdade, a luz, a ordem, a Natureza em sua plenitude excelsa e deslumbrante. Se o homem obedecesse à Natureza, estaria sempre com Deus. O Espírito também é da Natureza: as leis que lhe presidem o destino são naturais como as que governam a mecânica celeste no giro dos planetas; como as que determinam a germinação da semente ou a coloração das flores. A Natureza abrange tudo, nada havendo fora da influência e da regência de suas leis.

         Há fenômenos insólitos, preternaturais, mas sobrenaturais nunca houve, nem haverá. A própria luta do Espírito com a carne é um fenômeno da Natureza. O homem sente que deve vencer a matéria. A dignidade própria lhe diz Intimamente que ele só poderá ser grande se triunfar sobre a matéria e seus desejos. O homem tem consciência que o senso da vida repousa nessa porfia e na conseqüente vitória que ele deve alcançar. E tudo isto é divino porque foi concebido por Deus, faz parte do seu programa de educação destinado à redenção dos seus filhos, que são os filhos da Humanidade.

         Não desprezemos, pois, coisa alguma. Amemos o que é puro e até o que é impuro, lembrando que o amor tudo purifica. Jesus não desdenhou os delinqüentes de qualquer matiz; e até mesmo a mulher adúltera e a pecadora Madalena encontraram nele refúgio e redenção. Os homens profanam o santuário de Deus, entregando-se aos caprichos desordenados do egoísmo insaciável. Desvirtuam o corpo, corrompendo e adulterando as suas manifestações e expansões naturais. Daí o estrabismo das igrejas criar artificialmente uma distinção entre o natural e o divino, como se tal distinção pudesse existir. Tal a origem dos jejuns, dos cilícios e mortificações infligidas ao corpo, como meio de alcançar o céu. Erro palmar. O céu é dos fortes e não dos fracos que fogem à luta; é dos que combatem com lealdade, de viseira erguida, e não, com astúcia. Enfraquecer o corpo para assegurar a vitória do Espírito importa num falso processo de vencer. E' ilusório esse triunfo. O Espírito, em verdade, não venceu o inimigo; iludiu-o apenas. Não se abrem as portas dos tabernáculos eternos com gazua. Jesus prometeu a Pedro, como aliás aos demais apóstolos, as chaves, não as gazuas, do reino dos céus..

         O caminho de evolução é um só, alegorizado naquela porta estreita e estrada apertada de que nos fala o Evangelho.

         Não procuremos, portanto, o marco que divide o humano do divino, porque tal marco é uma ilusão. Divinizemos o humano. Para que tal conseguíssemos é que o Verbo divino se humanou.

         Livro: Em Torno do Mestre.

         Vinícius / (Pedro Camargo)

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