Guardai-vos
e acautelai-vos de toda a avareza, porque a vida de um homem não consiste na
abundância dos bens que possui — disse o maior expoente da Verdade que os
homens conhecemos. Em seguida, para corroborar aquele assertivo, propôs a
seguinte parábola aos seus discípulos:
As
terras de um homem rico produziram muito fruto. E ele discorria consigo: Que
farei, pois não tenho onde recolher os meus frutos? E concluiu: Farei isto:
derribarei os meus celeiros e os reconstruirei maiores, e aí guardarei toda a
colheita e os meus bens; e, em seguida, direi: Minha alma, tens largos bens em
depósito para longos e dilatados anos: descansa, come, bebe e regala-te. Mas,
Deus disse-lhe: Néscio, esta noite te exigirão a tua alma; e as fazendas que
ajuntaste, para quem serão?
Quanta
sabedoria em tão singela fábula!
Quão
transcendente lição nesta frase tão simples: A vida do homem não consiste nos
bens que possui!
Se
a longevidade dependesse dos cabedais, seria justificável que o homem se
empenhasse pelos obter a todo custo.
Se,
de outra sorte, a felicidade tivesse uma relação direta com as riquezas,
compreender-se-ia que o homem buscasse conquistá-las, envidando, para isso,
seus melhores esforços.
Mas,
o fato indiscutível é que a vida e a felicidade do homem (felicidade, que outra
coisa não é senão alegria de viver) independem dos bens que ele consegue obter
e amontoar.
Ora,
se as fazendas e os haveres não asseguram vida longa nem venturosa, como se
explica a fascinação que exercem sobre os homens?
De
onde procede tanto apego às temporalidades do século?
Jesus
responde: vem da avareza. E, não só aponta a origem de tal vesânia, como
adverte: Guardai-vos e acautelai-vos de toda a avareza.
Sim,
de toda a avareza, isto é, das várias formas que essa terrível paixão assume,
dominando o coração do homem.
Alexandre
Herculano, impressionado com os diversos aspectos do orgulho, exclama: Orgulho
humano! que serás tu mais: estúpido, feroz ou ridículo?
Pois
a avareza comporta aqueles três qualificativos: pode ser estúpida, ridícula ou
feroz.
A
estúpida é aquela modalidade sórdida e mesquinha que faz o homem privar-se do
conforto, do necessário e até do indispensável, perecendo à míngua para
conservar intacta a pecúnia avaramente amealhada.
A
avareza ridícula é a do homem que tem no dinheiro o seu ídolo, a sua preocupação
constante e absorvente, empregando-o, embora, no luxo, na ostentação, ou
simplesmente na satisfação dos seus apetites e caprichos.
A
feroz (de todas a mais perniciosa) é a avareza dos açambarcadores, dos
organizadores de monopólios e trustes, cuja ambição e cupidez desmedidas não se
contentam com menos que possuir o mundo inteiro, ainda que para tanto seja
mister reduzir à miséria toda a Humanidade.
Outrora,
essa avareza gerou os conquistadores e os latifúndios.
Atualmente,
ostenta-se nas grandes organizações comerciais e industriais, nas companhias,
nos sindicatos e empresas poderosas cujos tentáculos se alongam em todas as
direções.
Essa
classe de avareza é geralmente peculiar a homens inteligentes, ricos, astutos e
de alta cotação social. Das três, é, como ficou dito, a mais perniciosa e a que
mais danos tem acarretado à sociedade de todos os tempos. Um só avaro dessa categoria, ou uma comandita
de meia dúzia deles, pode reduzir à fome uma cidade, um povo inteiro.
É
a responsável pela carestia e pelas crises econômicas que convulsionam o mundo,
dando origem às lutas fratricidas que, por vezes, estendem o negro véu da
orfandade e da viuvez sobre milhares de crianças e de mulheres indefesas. É
também obra sua, nos tempos que correm, os milhões de desocupados nos países
industriais, e as pretensas superproduções nos países agrícolas.
O
trabalho suspenso; o legítimo comércio (que significa a livre troca de produtos
entre as nações), quase de todo paralisado graças às odiosas barreiras
alfandegárias, são outros tantos crimes de lesa humanidade praticados pela
avareza da terceira espécie, isto é, a feroz.
As
outras duas formas são mais estados mórbidos ou doentios da alma; a feroz é que
caracteriza a verdadeira avareza. Aquelas prejudicam somente os indivíduos que
as alimentam; ao passo que os maléficos efeitos desta atingem um raio de ação
considerável, incalculável mesmo.
*
* *
Todavia,
os escravizados por essa cruel paixão são dignos de piedade.
Vivem
iludidos; agitam-se, como todos os homens, em busca da sonhada felicidade.
Julgam encontrá-la na satisfação dos desejos, na expansão do egoísmo. Cobiçando
sempre, vão alimentando ambições, que jamais chegam a ser satisfeitas.
Entretanto,
a nossa alma, para ser feliz, não precisa construir celeiros de proporções
desmesuradas como fez o rico da parábola; não precisa mesmo de um céu imenso,
recamado de sóis refulgentes, basta-lhe uma nesga azul, onde "brilhe a
estrela do amor".
Livro:
Em Torno do Mestre.
Vinícius
(Pedro de Camargo)
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