domingo, 30 de novembro de 2014

Marta e Maria – 2º / Martins Peralva.

Marta! Marta! andas inquieta..
Há na existência humana —  na existência de toda criatura —  duas partes: a material, representada pelas obrigações que a própria vida impõe, e a espiritual, representada pelos deveres relacionados com a alma eterna.
Ambas são respeitáveis, porque integram o conjunto de necessidades humanas, decorrentes da própria vida em sociedade.
A mulher e o homem, o velho e a criança, o pobre e o rico, a autoridade e o subalterno, o letrado e o analfabeto vivem as duas partes.
O que as distingue, contudo, é que uma tem caráter efêmero e a outra tem caráter  definitivo.
A parte material de nossa vida, em que pese à sua respeitabilidade, é passageira, é transitória.
A parte espiritual é eterna, imortal, imperecível.
A inquietação de Marta indica apreço maior à parte material, tanto assim que se não preocupa com as sublimes lições que o Mestre distribui, com abundância — e que Maria absorve, sequiosa.
À medida que a criatura vai sentindo a parte espiritual, começa a existir nela mesma, do  lado de dentro, uma quietude, um sossego, uma profunda e inalterável calma no trato com a outra parte — a material.
Foi o caso de Maria.
Não ignorava que a arrumação do aposento e o próprio repasto podiam ser  adiados —  sem prejuízo para os interesses eternos.
Podiam ficar para depois, a fim de que se não perdesse o alimento divino  que Jesus ofertava.
O abençoado minuto da visita do Cidadão Celeste representava ocorrência fundamental, inadiável, que, possivelmente, nunca mais se repetisse.
O Mestre deveria seguir o seu  caminho, demandando outras aldeias e outras gentes, a espalhar luz em profusão e bênçãos em abundância.
Sol Divino — a iluminar outros sóis, que lhe refletem a claridade. . .
Urgia, portanto, não se perdesse uma só de suas palavras, um só dos seus ensinamentos.
Esse era o conceito de Maria, a respeito da visita de Jesus à sua casa.
*** 
Há muita gente no mundo na posição de Marta: generosa e fraterna, mas inquieta, agitada, desassossegada ante as coisas perecíveis.
Muito poucos seguimos o exemplo de Maria, que, acordada para a Verdade, mostrava­se quieta por dentro e por fora, superior aos problemas efêmeros, sem, contudo, desprezar­lhes a valia relativa.
A advertência do Mestre conserva, ainda hoje, a sua oportunidade.
É necessário impere em nós o espírito calmo de Maria, inclinado às coisas infinitas, a fim de que as inquietações finitas de Marta nos não impeçam de ouvir, sem enfado, os conselhos do  Mestre — que o Evangelho trouxe e o Espiritismo revive.
O Evangelho, que o Senhor pregava naquela hora a Maria e a Marta, continua sendo o  tema de mais fundamental importância para a nossa alma.
Por meio de suas lições, sentidas e exemplificadas, caminharemos para o  progresso, alcançaremos a luz.
Os problemas mundanos, sem que os depreciemos, nem lhes diminuamos o  valor, atendem, apenas, ao instante que passa.
Jesus —  no conceito de Maria —  era uma realidade que ela desejava perenizar na sua alma; um tesouro que não lhe devia fugir dos olhos e do coração.
Jesus — no conceito de Marta — era um Hóspede Celeste, cuja presença deveria honrar, naquele instante.
Os serviços domésticos constituíam, para a jovem afanosa, elemento inadiável.
O Cristo respeitou, carinhosamente, a imaturidade da moça de Betânia, tanto que se limitou  a realçar­lhe a inquietação, tentando reajustá­la: Marta!  Marta!  Andas inquieta e te preocupas com muitas coisas.
Identificou­lhe, com ternura, a infância espiritual.
Sabia­a despreparada para remígios mais altos, como plumitiva das coisas espirituais.
Não a censurou, nem a recriminou. Apenas aconselhou­a, com delicadeza, a que se acalmasse.
E, sem exaltar a vantajosa posição de Maria, para não lhe prejudicar o  germe do entendimento superior, esclarece: Maria, pois, escolheu a boa parte e esta não lhe será tirada.
Livro: Estudando O Evangelho.
Martins Peralva.

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