segunda-feira, 11 de maio de 2015

A contínua luta entre o ego e o Self - Joanna de Ângelis.

Invariavelmente, o indivíduo busca superar esse eu opositor frequente, adotando comportamento castrador, por intermédio do esforço consciente para suprimi-lo, o que redunda em grande fracasso, porque o polo que orienta o outro eu permanece vivo, embora disfarçado pela aparência que se adquire.
Não são poucos os indivíduos que se refugiam em ideais, especialmente nas doutrinas religiosas, como evasão da realidade, adotando comportamentos nobres, no entanto, mascaradores dos seus conflitos, como, por exemplo, quando na adoção de condutas violadoras das funções orgânicas, especialmente as genésicas, liberando, embora inconscientemente, a sexualidade, nos abraços e beijos fraternais...
A sombra existente no ser humano não deve ser combatida, senão diluída pela integração na sua realidade existencial.
Ela desempenha, portanto, um papel fundamental no equilíbrio entre o ego e o Self, no que resulta a unificação também dos poios quando se consegue a sua diluição.
A cisão existente, defluente da fragmentação psicológica, deve avançar para a integração, a unidade.
O ego, no conceito freudiano, conforme bem o define o dicionário Aurélio, é: A parte mais superficial do id, a qual, modificada, por influência direta do mundo exterior, por meio dos sentidos, e, em consequência, tornada consciente, tem por funções a comprovação da realidade e a aceitação, mediante seleção e controle, de parte dos desejos e exigências procedentes dos impulsos que emanam do id.
Nele se encontram, portanto, os impositivos dos instintos que se derivam do princípio do prazer e pela compulsão ao desejo.
São esses impulsos o resultado dos instintos procedentes das faixas primárias da evolução, que se destacam em oposição quase dominante contra a razão, a consciência de solidariedade, de fraternidade, de tolerância e de amor.
Dominador, o ego mascara-se no personalismo, em que se refugiam as heranças grosseiras, que levam o indivíduo à prepotência, à dominação dos outros, em face da dificuldade de fazê-lo em relação a si mesmo, isto é, libertar-se da situação deplorável em que se encontra.
A luta interna dos dois poios faz-se cruel, embora o ego aparente ignorá-la, mantendo uma superficial consciência do valor que se atribui, do poder que exterioriza, da condição com que se apresenta.
Sendo o Self o arquétipo básico da vida consciente, o princípio inteligente, ele é o somatório de todas as experiências evolutivas, sempre avançando na direção do estado numinoso.
Nessa dissociação dos poios, muitas vezes pode parecer que o indivíduo, a grande esforço, conseguiu a integração, até o momento em que se surpreende com o terror da cisão inesperada que o leva a um transtorno profundo, especialmente se viveu em razão de um ideal que asfixiou o conflito, mas não o solucionou, despertando com sensação de inutilidade, de vazio existencial.
Sucede que o ego exige destaque, compensação, aplauso, embora nos conflitos entre razão e instinto, originando-se nele um tipo de sede de água do mar, que não é saciada por motivo óbvio.
Mesmo encontrando compensações de prazer, do impulso instintivo que leva à compulsão do desejo, a insatisfação defluente da ansiedade do poder empurra a sua vítima ao transtorno depressivo, porque a sua ânsia de dominação termina por esvaziá-lo interiormente.
O mesmo ocorre na vida monástica, no período em que diminuem o entusiasmo e o egotismo no postulante ou no religioso, quando então é acometido pela melancolia que se agrava em afligente depressão, falsamente interpretada como interferência demoníaca, pelo fanatismo que ainda vige em muitos setores da fé espiritualista.
Com alguma razão, Alfredo Adler referia que o instinto de dominação no indivíduo, quando não encontra compensação ou não se sente reconhecido e aceito, foge, oculta-se na depressão, na qual expressa a agressividade e a violência.
Nesse sentido, o paciente não tem problema, pois que o estado em que se encontra de alguma forma faz-lhe bem, tornando-se um problema para o grupamento social saudável, que busca manipular, dominando-o, tornando-se fator de preocupação para os outros. *
Conscientizar a sombra, diluindo-a, mediante a sua assimilação, ao invés de ignorá-la, constitui passo avançado para a perfeita identificação entre ego e Self.
Jung percebeu com clareza esses dois eus no indivíduo, que se podem explicar como resultantes do Self, aquele que é bom e gentil, e do ego que preserva o lado feroz, vulgar, licencioso, negativo.
Poder-se-ia dizer que o indivíduo possuiria duas almas em contínuo antagonismo no finito de si mesmo.
Essas expressões apresentam-se na conduta humana, quando em público, aparenta-se uma forma de ser e, quando, no lar, na família ou a sós, outra bem diferente. O que representa gentileza transforma-se em mal-estar, azedume e aspereza.
Aceitar-se com naturalidade esses opostos é recurso salutar, terapêutico, para melhor contribuir-se em favor da harmonia entre os outros litigantes, que são o ego e o Self.
No comportamento social não é necessário mascarar-se de qualidades que não se possuem, embora não se deva expor as aflições internas, os tormentos do polo negativo.
Assumir-se a realidade do que se é, administrando, pela educação - fonte geradora dos valores edificantes e enobrecedores - os impulsos do desejo e do prazer, transformando-os em emoções de bem-estar e alegria, saindo da área das sensações dominantes, constitui maneira eficiente para diminuir a luta existente entre os dois arquétipos básicos da vida humana.
Uma religião racional como o Espiritismo, destituída de fórmulas que ocultam o seu conteúdo, que é otimista e não castradora, que convida o indivíduo a assumir as suas dificuldades, trabalhando-as com naturalidade, sem a preocupação de parecer o que ainda não consegue, estruturada na realidade do ser imortal, com as suas glórias e limitações, é valioso recurso terapêutico para a união de todos os opostos, que passarão a fundir-se, dando lugar a um eu liberado dos conflitos, que se pode unir à Divindade, sem os artifícios que agradam os indivíduos ligeiros e seus supérfluos comportamentos existenciais.
A luta, portanto, existente entre o ego e o Selfé saudável, por significar atividade contínua no processo de crescimento, e não postura estática, amorfa, que representa uma quase morte psicológica do ser existencial.
Humanizar-se, do ponto de vista psicológico, é integrar-se. Jesus-Cristo foi peremptório, demonstrando a Sua perfeita integração com o Pai, quando enunciou: - Eu e o Pai somos um, dando lugar à perfeita identificação entre ambos, aos comportamentos nobres, às propostas libertadoras sem poios de oposição.
Mais tarde, o apóstolo Paulo, superando as lutas entre o ego dominante e o Self altruísta, universal, proclamou: — Já não sou eu quem vive, mas o Cristo que vive em mim.
A sombra que nunca teve existência em Jesus, dele fez a Luz do mundo e a que existia em Saulo, Paulo, por fim, iluminou-a, diluindo-a no amor.
Livro: Em Busca da Verdade.
Joanna de Ângelis / Divaldo Franco.

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