terça-feira, 21 de abril de 2015

Parábola do Mordomo Infiel – Rodolfo Calligaris

“Havia um homem rico que tinha um mordomo; e este lhe foi denunciado como esbanjador dos seus bens. Chamou-o, então, e lhe disse: Que é isto que ouço dizer de ti? Dá conta da tua administração, pois não podes mais ser meu administrador.
Disse o mordomo consigo: Que hei-de fazer, uma vez que meu amo me tira a administração? Não sei cultivar a terra, e de mendigar tenho vergonha. Já sei o que farei, a fim de que, quando me houverem tirado a mordomia, encontre pessoas que me recebam em suas casas.
Chamou cada um dos que deviam a seu amo e perguntou ao primeiro:
Quanto deves a meu amo? O devedor respondeu: cem cados de óleo. Disse-lhe então: Toma a tua obrigação, senta-te ali e escreve depressa outra de cinquenta.
Perguntou em seguida a outro: Quanto deves tu? Respondeu ele: cem cados de trigo.
Disse-lhe: Toma o documento que me deste e escreve um de oitenta. O amo, sabendo de tudo, louvou o mordomo infiel, por haver procedido com atilamento, porque os filhos do século são mais avisados no gerir seus negócios do que os filhos da luz.
E eu vos digo: Empregai as riquezas da iniquidade em granjear amigos, a fim de que, quando elas vierem a faltar-vos, eles vos recebam nos tabernáculos eternos. Aquele que é fiel nas pequenas coisas sê-lo-á também nas grandes, e quem é injusto no pouco também o é no muito. Ora, pois, se não houverdes sido fiéis no tocante às riquezas de iniquidades, quem vos confiará as verdadeiras? Se não fostes fiéis com o alheio, quem vos dará o que é vosso?” - Jesus / Lucas, 16:1-12.
* * *
Esta parábola, interpretada ao pé da letra, pode dar a entender que o
Mestre esteja apontando o roubo e a fraude como exemplos de conduta dignos de serem imitados.
Considerada, porém, em seu verdadeiro sentido, segundo o espírito que vivifica, encerra uma profunda lição de sabedoria e de bondade que poucos hão sabido entender.
Inicialmente, identifiquemos as duas principais personagens da historieta evangélica, e o local em que a ação se desenrola.
O rico proprietário é Deus, o Poder abso luto que sustenta todo o Universo; o mordomo é a Humanidade, ou seja, cada um de nós; e a fazenda é o planeta Terra, campo em que se desenvolve atualmente nossa evolução.
Os bens que nos foram dados a administrar é tudo o de que nos jactamos estultamente nesta vida: propriedades, fortuna, posição social, família e até mesmo nosso corpo físico.
Todas essas coisas nos são colocadas à disposição pelo Supremo Senhor, durante algum tempo, a fim de serem movimentadas para benefício geral, mas, em realidade, não nos pertencem.
A prova disso está em que sempre chega o dia em que seremos despojados delas, quer o desejemos, quer não.
Nossa infidelidade consiste em utilizarmo-nos desses recursos egoisticamente, como se fossem patrimônio nosso, dilapidando-o ao sabor de nossos caprichos, esquecidos de que não poderemos fugir à devida prestação de contas quando, pela morte, formos despedidos da mordomia.
Pois bem, já que abusamos da Providência, malbaratando os bens de que somos simples administradores, tenhamos ao menos o atuamento do mordomo de que fala a parábola.
Que fez ele? Para ter quem o favorecesse, quando demitido do cargo que desempenhava, tratou de fazer amigos, reduzindo as contas dos devedores de seu amo.
 É o que Jesus nos aconselha fazer, quando diz: “granjeai antigos com as riquezas iníquas”.
Em outras palavras, isto significa que os sofredores de todos os matizes são criaturas que se acham endividadas perante Deus, são pecadores que têm contas a saldar com a Justiça Divina, e auxiliá-los em suas necessidades, minorar-lhes as dores e aflições, equivale a diminuir-lhes as dividas, de vez que, via de regra, todo sofrimento constitui resgate de débitos contraídos no passado.
Se assim agirmos, ganharemos a amizade e a gratidão desses infelizes, que se solidarizarão conosco quando deixarmos este mundo, bem assim a complacência do Pai celestial, porque muito Lhe apraz ver-nos tratar o próximo com misericórdia.
Não falta, aqui na Terra, quem admire “os filhos do século” pelo fato de se empenharem a fundo, com inteligência, denodo e sacrifícios até, no sentido de assegurarem aquilo a que chamam “o seu futuro”.
Quão maiores louvores, entretanto, haveriam de merecer de Deus “os filhos da luz”, os já esclarecidos acerca da vida espiritual, se procedessem com igual esforço e dedicação, empregando a bondade na conquista dos planos superiores, situados além deste orbe de trevas?
Sejamos, pois, colaboradores fiéis da Divindade, gerindo os bens materiais de que dispusermos em conformidade com os ensinamentos sublimes que nos foram ditados por Jesus no Sermão da Montanha; assim fazendo, estaremos acumulando, no céu, um tesouro verdadeiramente imperecível. Sim, porque as virtudes cristãs, que formos adquirindo no convívio com nossos semelhantes, são as únicas riquezas efetivamente nossas, e só elas nos poderão dar a felicidade perfeita, nos tabernáculos eternos!
Livro: Parábolas Evangélicas.
Rodolfo Calligaris.

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