terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Não Jureis de Forma Alguma! – Huberto Rohden

       “Seja o vosso modo de falar um simples sim, um simples não — o que passa daí vem do mal.”
Quão profunda sabedoria em tão poucas palavras!
Aprendi no Catecismo que não se deve jurar falso nem em vão; mas que o juramento sério e verdadeiro é bom e pode até ser necessário. Tenho em meu poder uma Bíblia, publicada com a devida aprovação eclesiástica, que, depois das palavras “não jureis de forma alguma”, acrescenta em parênteses as seguintes palavras restritivas, do tradutor: “se não for necessário”, inutilizando assim a proibição categórica do Cristo e adulterando o Evangelho pela teologia.
Tudo que passa de um simples sim e de um simples não vem do mal, inclusive o juramento, tanto falso como verdadeiro, porque ele nunca é necessário. Em última análise, todo e qualquer juramento provém do mal, porque supõe algo mau. O juramento foi introduzido na vida social da humanidade por causa da desconfiança e inconfidência que, em geral, reinam entre os homens. Uns mentem aos outros. E, quando alguém fala a verdade, ninguém acredita, de tão geral que é o hábito de mentir. Por isso no intuito de corroborar a verdade de uma afirmação, exigem os homens, que ela seja consolidada por meio dum juramento. Quem jura invoca a Deus por testemunha, da verdade do que afirma, e, se a sua afirmação não representa a verdade, mas uma inverdade consciente, então invoca a Deus como testemunha da mentira, o que é uma blasfêmia, chamada “perjúrio”.
É verdade que o juramento oferece maior garantia da verdade do que um simples sim ou não?
Absolutamente não!
Quem é capaz de mentir é capaz, também, de jurar falso. E quem não pode confiar em uma afirmação simples como expressão da verdade, esse, também, não pode confiar em uma afirmação juramentada.
O divino Mestre não está interessado em curar sintomas de doença, mas sim, a própria doença. A praxe de jurar é sintoma de um mal profundo, que é o hábito de desrespeitar a verdade. Quem reprime sintomas é charlatão — quem cura a raiz do mal é médico.
O caráter do Evangelho não é simplesmente corretivo, mas sim preventivo. Se a humanidade se habituasse a nunca mentir, nunca ninguém sentiria a necessidade de jurar, porque um simples sim ou um simples não dariam certeza absoluta.
O comerciante mente sobre o valor e os preços das mercadorias, a fim de acumular matéria morta.
A dona da casa manda a empregada mentir que a patroa não está em casa, para não receber visitas indesejáveis.
O político, o advogado, o diplomata mentem para prestigiar ou desprestigiar uma causa ou uma pessoa.
O estudante mente “colando” uma prova do vizinho em vez de estudar o assunto.
Até a criança mente para não ser castigada. Omnis homo mendax — afirma a Sagrada Escritura — todo homem é mendaz.
Por isso, com o fito de fazerem crer aos outros que o que dizem é verdade, julgam os homens necessário jurar, invocando a Deus por testemunha.
O juramento é prole legítima da mendacidade — e como poderia ser puro o filho, se tão impura é a mãe?...
O verdadeiro discípulo do Cristo, fez consigo esse pacto sacrossanto, de nunca faltar à verdade, por maiores que sejam as vantagens que a inverdade lhe dê, ou as desvantagens que lhe advenham do culto à verdade.
Quase 100% da nossa publicidade comercial, pela imprensa, pelo rádio, pela televisão, pelos cartazes, são mentira a serviço da cobiça. A alma da arte publicitária consiste em fazer crer ao homem que ele necessita de uma coisa que ele apenas deseja; e, quando ele identifica o seu desejo artificial com uma necessidade natural, então é dócil freguês e compra tudo de que julga necessitar.
Torna-se freguês e enriquece os cofres dos publicitários e vendedores, graças a uma série de mentiras que ele aceitou como verdades.
Quem lê ou ouve diariamente esse dilúvio de mentiras veiculadas pelos citados canais de publicidade, dificilmente atingirá um grau de verdadeira pureza, necessária para a sua realização em Cristo. A nossa decantada civilização, quase inteiramente baseada na mentira e na ganância, é o maior impedimento para a auto-realização. Quem se expõe diariamente a esse impacto de profanidade e se identifica, aos poucos, com esse ambiente, não deve estranhar a sua falta de espiritualidade e paz interior. Quem não quer os meios não quer o fim, Mahatma Gandhi foi, durante toda a sua vida, após a conversão ao mundo de Deus, o grande cultor da verdade incondicional, mesmo à custa dos maiores sacrificios. Sabia ele que a verdade, e só ela, é que é libertadora.
A verdadeira felicidade não medra senão em um clima da veracidade absoluta e incondicional. Os sofrimentos que o culto inexorável da verdade acarreta, não raro, a seus fiéis discípulos, são necessários para que a verdade possa prosperar — assim como o adubo é necessário para a planta poder medrar devidamente.
Sendo que Deus é a própria Verdade, tanto mais divino é o homem quanto mais intransigente cultor da Verdade.
O verdadeiro discípulo do Cristo não pode reduzir-se à condição de ser um passivo refletor da opinião pública e dos vícios sociais, como se fosse um simples espelho — tem a missão sagrada de ser um diretor e orientador de seus semelhantes,  rumo à grande libertação, rumo às alturas do reino de Deus...
Livro: O Sermão da Montanha.
Huberto Rohden.

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